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#2 – Pinheads – “For Fun” – 1993 – Bloody Records

dezembro 2, 2009 Deixe um comentário


“For Fun” por Wladimyr Cruz

Na primeira metade dos aos 90, o tal ‘hardcore melódico’, ou ‘punk melódico’, começava a pipocar por aqui, primeiro com Bad Religion, logo seguido por NOFX, Pennywise, e claro, em 94, com a explosão do Green Day e do Offspring. O contato dentro da cena era dificil, e conhecer novas bandas, só por flyers e/ou shows, quem sabe até uma fita coletânea, que hoje chamam de mixtape. Nesse cenário que ouvi falar de uma banda do Paraná, que tocava o tal som melódico, e que sim, estava arrebentando.
O Pinheads foi uma das primeiras bandas de Curitiba a ter uma projeção forte fora de seu cenário natal, ao menos no boca a boca, e com “For Fun” registrou perfeitamente toda essa época e espírito.
O 7″, que na época era dificílimo de ser lançado, possui apenas 6 músicas, as quais mostram (quase) todo poder de fogo do grupo. “Psycho Zone” é uma das músicas mais bacanas da história do hardcore-punk nacional, tendo inclusive ganhado uma versão pop-punk a altura feita pelo Holly Tree no disco tributo “Here’s The Silver Tape”, álbum lançado em 2001 e que fez justiça ao legado do trio e punks. Nesta coletânea ainda temos outros nomes de peso da cena na época, como Mukeka Di Rato, Jason, Randal Grave e Hateen.

Por que “For Fun”?

Pedra fundamental e influente na história do hardcore melódico brasileiro e um dos responsaveis pela cena curitibana ter sido, logo em seguida, uma das mais produtivas do Brasil.

O que ouvir?

O disco todo, aqui.

Multimidia:

Pinheads no festival JuntaTribo

“For Fun” por Dudu Munhoz

Foi o disco que abriu todas as portas para os Pinheads. Com o compacto em mãos divulgaram a banda para todos os cantos do Brasil. O show fora de Curitiba mais memorável deste ano de 1993 foi em S.P. (no Aeroanta junto com Pin Ups e Gangrena Gasosa). O trio que começou fazendo punk rock ramônico bem básico mostrou nesse compacto a sonoridade que marcou o estilo da banda… o tal do hardcore melódico.

Mil novecentos e noventa e três não foi um ano ruim. Não mesmo! Ruim era a qualidade de gravação de uma fita cassete com um ensaio com algumas músicas dessa primeira fase dos PINHEADS. Fita essa que caiu nas mãos de JR. Ferreira. Júlio freqüentava o 92 Degrees (bar de propriedade de JR.) e entregou a gravação para o dono do local. Ele gostou de “California” e comentou sobre o projeto que tinha para gravar compactos 7 polegadas com bandas locais.

Enquanto Júlio analisava a proposta do produtor, Dudu estava na praia curtindo sua “careca máquina dois” após ser aprovado no vestibular de Odontologia. Paulo foi visitar seu amigo baterista que não queria voltar da praia para ensaiar. Na praia, Dudu mostrou para Paulo “novos sons” que o amigo Mendes (inspirador da letra de California) tinha lhe gravado.

A fita cassete tinha o álbum auto-intitulado do Pennywise num lado, e metade do NOFX “Ribbed” no outro. Dudu sabia que os seus companheiros de banda também iriam ficar impressionados com essas duas novidades. E foi o que aconteceu! Aquela fita foi o tempero final para ferver o caldeirão de influências do trio! Paulo voltou para Curitiba com a fita Pennywise/NOFX e com duas letras que Dudu tinha composto na praia: “Plutoflipper’s Land” e “Won´t Change For Good”.

Quando Dudu voltou para Curitiba, Paulo e um inspirado Júlio já tinham idéias de músicas novas e queriam insistentemente participar do ambicioso projeto do JR. Com alguns ensaios, se constatou que as novas músicas eram muito boas: diretas, objetivas e bem acabadas. Com pequenas alterações, as letras de Dudu se encaixaram perfeitamente. Paulo ainda escreveu na íntegra “Digital Thoughts”.

O custo era honesto e assim aceitaram o desafio: gravariam um compacto em vinil! A expectativa era grande, afinal, entrariam num estúdio de gravação pela primeira vez. A desconfiança em relação ao projeto não era pequena, assim como a insegurança e a inexperiência. Era hora de ensaiar exaustivamente as músicas selecionadas. As três músicas novas, ultra-rápidas, foram escolhidas, assim como as mais velozes da primeira demo.

PINHEADS foi uma das últimas bandas do projeto à entrar no estúdio. Os produtores já sabiam o que podiam extrair daquelas bandas novatas e também sabiam de suas inúmeras limitações. A noite de gravação no estúdio Solo, sob a batuta de Victor França e produção de JR. Ferreira, se deu sem maiores problemas.

A banda estava afiada e sabia o que queria. As músicas da demo (“Psycho Zone”, “Death Is Not The End” e “California”) apareceram mais aceleradas. “Won’t Change For Good”, “Digital Thoughts” e “Plutoflipper’s Land” vislumbravam a futura sonoridade do trio. Todas as faixas receberam backing vocals de Paulo e Oohs and Aahs de Júlio e Paulo. JR. também participou fazendo La-La-Las em “Won’t Change For Good”.

Júlio ficaria responsável pelo conceito gráfico e a arte deveria ser entregue logo. Em poucos dias, o guitarrista chegou com tudo pronto: desenhos, recortes, título etc. Dudu e Paulo gostaram do trabalho, mesmo sendo muito parecido com a capa do álbum No Control, do Bad Religion.

Mas Dude lembrou de outros álbuns que adorava e que também tinham capas semelhantes à idéia de Júlio: Angelic Upstarts, “No Reason Why?”; D.O.A., “The Dawning of a New Error”; e Fugazi, “Repeater”. Assim, ficou tudo como Júlio tinha elaborado. Na contra capa, o nome da banda, o nome das músicas, o selo Bloody/92 Degrees e desenhos com a formação (Drums: Eduardo Munhoz; Guitarre: Julio Linhares; Bass/Vocals: Paulo Kotze).

Dudu e Paulo trataram de elaborar algo para ser encartado ao compacto. Fizeram mil cópias xerocadas em papel preto e branco com as letras, quinhentos “mini-releases” e uns duzentos adesivos caseiros feitos com papel contact.

O release trazia telefone, endereço e um breve texto: “Júlio (guitarra, back vocals), Dude (bateria) e Paulo (baixo e vocal) formam os PINHEADS. Com um público fiel e heterogêneo, a banda possui mais de vinte músicas, influenciadas pelo Punk Rock (Ramones, Buzzcocks) e principalmente pelo Hardcore americano (Bad Religion, NOFX, Circle Jerks, Agent Orange). Com as seis primeiras músicas do seu primeiro compacto (Pinheads For Fun), gravado pelo selo “Bloody”, os PINHEADS apresentam um som único, original; um hardcore melódico, irreverente, FOR FUN”.

Meses depois, no final de julho, o material chegou! Disquinhos de vinil em caixas de papelão de um lado. Capas desmontadas de outro. Seiscentas cópias ficaram para o selo Bloody e as quatrocentas restantes para a banda. Passaram horas e horas na casa do Júlio, ouvindo o compacto ininterruptamente, enquanto dobravam e colavam as capas uma por uma.

Alguns discos eram vendidos por preços módicos. A maioria era cortesia para divulgar o trabalho. Outras cópias certeiras estavam separadas para divulgação via Correios do Brasil.

O Caderno G da Gazeta do Povo escreveu: “FOR FUN EP – PINHEADS (Bloody): É impressionante como os caras conseguem uma precisão que arrasa qualquer ouvido. Inspirado na turma do punk californiano do melody hardcore – e isso fica mais que explícito na ode California – o trio manda em doze minutos seis bombas atômicas. Won´t Change For Good tem um ótimo punch, as letras carregam estruturas melódicas de três décadas atrás e o vocalista/baixista Paule, mesmo não tendo voz muito adequada, não deixa a bola cair”.

Em um sábado, no meio de junho, estava agendado um show dos paulistanos Pin Ups. Dudu resolveu visitar o 92 Graus na passagem de som dos Pin Ups, à tarde. Entregou um compacto para o guitarrista e gente fina Luiz Antonio Algodoal, outro para a baixista Alê (que na época namorava João Gordo, dos Ratos de Porão) e outro para o roadie da banda.

Dudu sabia que o Farofa, roadie dos Pin Ups, era vocalista de duas bandas de Santos: Garage Fuzz (o Neri tinha uma demo do GF) e Safari Hamburguers. Dudu tinha o vinil que o Safari havia recém-lançado pela gravadora Cogumelo e tratou de entregar um compacto para o rapaz. De noite, chegou ao 92 e observou uma turma conversando. A roda era composta por um sociável Paulo Kotze, mais o publicitário Neri e a baixista Alê (que acabara de colocar um adesivo caseiro dos PINHEADS no seu contra-baixo, mesmo alertando que não tinha gostado da letra de California). Alê disse que havia gostado do compacto e que tentaria agilizar um show dos PINHEADS na capital paulista.

Letras:

WON’T CHANGE FOR GOOD
Ancient boy used to live better/ No worries with drugs or polution/ His fruit didn´t have harch toxic/ and his cave was always clean     City boy doesn´t want to go to the front line/ City boy doesn´t want to hear his brother cry/ City boy is nothing but, nothing but a robot/ City boy gets blind with the videogames
Now we are living like the rats/ Eating shit and sometimes grass/ and things won´t change for good because we don´t know what we are doing
Air polution destroy our lungs/ Infra-red rays destroy our eyes/ Techno music destroy our ears and all of this don´t let us think

comentário: letra pessimista sobre o futuro. E de como as coisas tendem a piorar: drogas, poluição, agrotóxicos, alimentos processados, imediatismo inconsciente.

PSYCHO ZONE
I know there are people shouting on the boardwalk/ Fathers, mothers beating their children/ Green forests turning into red/ Plastic women with Many-side-lads    Psycho, Psycho Zone
Psycho, Psycho Zone   Little heads are calling Mr. Brett/ Joey Ramone is holding his guitar/ Skateboarders sliding on the street/ The Pinhead slam dancing Poison Heart

comentário: Imagens bêbadas colorindo a retina de uma cabeça alucinada. Recheada de auto referências (plastic women e many-side-lad são nome de músicas da primeira demo da banda) e homenagens (joey ramone, mr. brett “religion”, skate).

DEATH IS NOT THE END
Everybody has the right to die/ It´s the only sure thing we have/ You get rid of your desperate life/ Your suffering ends and comes paradise/ See, I´m telling you that/ Because I´m only sure of one thing: Death is not the end   It will be worse to live/ You will suffer more/ There will be much more pain/ If you don´t open this door
Death is a door, between heaven and hell yeah/ Death is an exit, at the end of the tunnel of life
The room which is next to this door/ Is much better than the previous one/ Death can´t be the end/ We need something more

comentário: Letra desejando que após a morte tenhamos outra vida.

PLUTOFLIPPER’S LAND
You think you´re someone special/ But you´re nothing, look down and smile/ You´re only a grain of sand/ In a polluted beach oh yeah
Be the happiest guy in the world, but not like this way
I know what I´m saying/ I lived in Plutoflipper´s land/ Health, peace and love everywhere/ The guns shoot water, sometimes Yoo-hoo
Be the happiest guy in the world, but not like this way/Welcome to Plutoflipper´s land/ Happiness is sleeping in your own bed
You have eyes, ears and legs, and you give no values/ Look at the sea, listen to this song/ Give more values to the “silly things”
Be the happiest guy in the world, but not like this way/ Welcome to Plutoflipper´s land
Everybody was smiling, they were happy/ Cartoon and Harmony In My Head…

comentário: Plutoflipper´s Land é um nome inventado. A letra é uma metáfora sobre enxergar a verdadeira natureza das coisas. Yoo-hoo é o nome de um refrigerante que Johnny Ramone era garoto propaganda. Harmony In My Head é o nome de uma música dos Buzzcocks. André Nervoso (baterista dos Beach Lizards) fez uma belíssima versão desta música no cd tributo aos Pinheads. E numa sacada genial enxertou trechos da música dos Buzzcocks na música do trio curitibano.

CALIFORNIA
This place is only in your dreams/ Surfers going to theirs trips/ So many bands to adore/ You catch the girls but you want more/ Beach, girls, rock´n´roll/ That´s the life in California
Los Angeles the fucking gangs/ Bad Religion, melody hardcore bands/ Lakers, Raiders and Clippers/ Circle Jerks at the Roxy
I don´t have money not time to go to California/ I wanna give up this life to go to California
Venice street, Suicidal/ Skate what I wanted to do/ Beach Boys, the sun to rise/ It´s really the paradise

comentário: Letra ingênua enxergando a ensolarada California como a meca de tudo que gostavam: Skate, Surf, Hardcore, Basquete e as ruas de Venice.

DIGITAL THOUGHTS
When god created life he didn´t want to be like this/ People living like a digital watch/ We´re slaves of mechanization/ Get rid of the metronome which is inside your head
We´re completely dependents on digital thoughts/ You must understand/ Everybody will die if we turn off our heads/ You must understand that
We use apparatus to do everything/ To eat, to read, to think, to live/ We use them much more than we use our brains/ I only ask you: Is it worth it?
Digital thoughts/ Pull them out of your socket, baby/ Digital thoughts/ Is it worth it? oh yeah

comentário: letra visionária de Paulo Kotze. Pré internet mas já com frases como: “Somos escravos da mecanização, completamente dependentes no pensamento digital. Usamos aparatos para fazer tudo. Usamos mais esses aparatos do que nosso próprio cérebro”.

O que eles dizem?

“Como o Pinheads chegou na “Terra do Peão”? Pode parecer inimaginável, mas no passado teve uma cena de rock alternativo muito produtiva em Barretos. O Pinheads foi uma das bandas responsáveis pela manutenção dela até o final dos 90´s.
Diz a lenda que o Dudu passou por Joinville/Jaraguá do Sul e presenteou o Alexei (vulgo Peewee) com um compacto de sua banda chamada Pinheads.
Depois de um período vivendo no Sul, o barretense retornou para a roça e espalhou esse compacto e outros sons sulistas para os rockers caipiras. Trouxe na mala alguns zines, k7´s, discos e uma certa motivação para influenciar os colegas para montarem bandas.
Nesse período eu tocava numa banda chamada Corrosão e estávamos buscando outras direções musicais. Eu escutava muito rock 60´s e tentava ludibriar meus colegas para criarmos algo melódico ao invés de perambularmos pelas zonas barulhentas do crossover, grind ou thrash. Apesar de gostar desses estilos, minha intenção era criar um conjunto que misturasse a influência melódica 60´s com as distorções e a rapidez do hardcore. Um dos primeiros contatos com o chamado “punk melódico”/“hc melódico” foi escutando o compacto “For Fun”. Nós conhecíamos Adolescents, Circle Jerks, Buzzcocks, Agent Orange, Husker Du… mas bandas da Epitaph/Lookout!/Fat Wreck (exceto Bad Religion) ainda eram coisas estrangeiras para nossos ouvidos.
O compacto foi a faísca necessária para eu sair da Corrosão e chamar outros amigos que compartilhavam comigo a idéia de fazer um som “simples, rápido e melódico”. O conceito de “tosco” que o Julio utilizava muito nas correspondências, vinha a calhar com a proposta da minha nova banda. A velocidade do som produzido pelo Pinheads e a minha identificação com o vocal melódico do Paulo movimentaram as idéias iniciais para a criação da Guliver.”
(Daniel – Guliver)

“Cara…esse disco foi um dos primeiros discos de punk rock nacional que eu ouvi. Acho que foi um dos primeiros a ser prensado em vinil pela bloody recodrs do jr. Me influenciou na época das demos. Foi por causa do Paulo Kotze que eu quis tocar baixo no punkrock. Das bandas underground nacionais, ele sempre foi o maior baixista e compositor pra mim”.
(Guile Joe – Boobarellas)

Para baixar o disco: Aqui.

#1 – Carbona – “Back To Basics” – 1999 – 13 Records

novembro 17, 2009 Deixe um comentário

“Back To Basics” por Wladimyr Cruz

Conheci os Carbonas, se não em engano, no show do Marky Ramone na Broadway. Fui neste show com o João Veloso Jr. (White Frogs) e lá conheci o Melvin, acho. A partir dai, conheci a banda, e voltando pra Santos/SP, onde morava na época, resolvi promover um show da banda por aqui, em parceria com um amigo – Matheus Krempel – curiosamente, o lançamento do “Back To Basics”. O show foi um sucesso, pelo que eu me lembre, e abriu as porteiras do Carbona no litoral paulista.
O disco em si virou uma praga, junto com o “Running Out Of Sense” do Holly TREE era o ‘hors concours’ da garotada da época. “Macarroni Girl”, ao lado de “Hey@ Stop it” e “We Build Our Own Way” (do Street Bulldogs) talvez foram as grandes canções da cena independente em sua virada de século, ao menos em popularidade.
A arte chupada dos Ramones, ao invés de soar pedante, dava norte a quem caçava algo no estilo no Brasil, além é claro, de carimbar a antropofagia pop que permeia todo o álbum, com referências a vida pessoal dos integrantes e ao Rio De Janeiro.
“Back To Basics” influenciou uma geração de bandas bubble-gum, e não fica longe de clássicos internacionais do estilo.

Por que “Back To Basics”?

Foi o disco que definiu, completamente, o que é fazer punk ‘bubble gum’ no Brasil.

O que ouvir?
“Macarroni Girl”

Multimidia:

“Back To Basics” por Melvin Ribeiro (Carbona)

Nesse mês de Novembro o nosso segundo disco, “Back to Basics”, está fazendo 10 anos. Por mais que esse texto seja comemorativo, acho que posso pular toda a parte sobre como não parece ter passado tanto tempo, né?

Nesse instante coloquei o disco pra rolar aqui, pela primeira vez em muito mas muito tempo mesmo. No Carbona normalmente é o Pedro que fica ouvindo os discos pra sempre. Eu e o Henrique ouvimos bem menos depois de gravado. Eu provavelmente faço isso com medo de ouvir de novo e achar que está tudo ruim.

Mas a primeira impressão  é a melhor possível! Gostei muito do jeito como o disco ainda soa! Então, um pouco de História e histórias agora…

Em 99 o Carbona não tinha completado dois anos ainda, fazia shows quase todo final de semana, já tinha feito a tour nos Estados Unidos e Canadá e lançado o “Go Carbona” por lá, estava naquela fase de topar todo tipo de roubada ainda e toda essa atuação tinha levado a gente a ser bastante conhecido/respeitado já.

Por incrível que pareça a demoramos muito a chegar a São Paulo (por alguma razão parecia que as pessoas não iam gostar…). Já tínhamos tocado em Curitiba e em outros lugares e, numa viagem para assistir o show do Marky Ramone na Broadway (tínhamos conhecido o Marky na turnê americana), reconhecemos o André Tor do Zumbis do Espaço, figura central para toda a história do “Back to Basics”. O Pedro tinha comprado o CD do Zumbis num show em Belo Horizonte com o Dead Fish e Zumbis era trilha certa das nossas viagens. Quem conhece o Tor imagina que ele foi no mínimo bastante desconfiado quando fomos abordá-lo, mas ficou com o CD e um tempo depois retomou o contato.

O André já tinha a 13 records e além do Zumbis estava lançando o primeiro Street Bulldogs, um dos discos que mais vendeu na história do selo. Ele se interessou em lançar o “Go Carbona” no Brasil mas o disco já estava na fábrica, pronto pra ser lançado pelo meu selo com o pessoal do ACK, a Traidores Records.

Começamos a tocar com o Zumbis direto e o André soube que já tínhamos algumas gravações de depois do primeiro disco. Mais do que isso, o Henrique tinha acabado de compor algumas das nossas melhores músicas. O André achou que já era hora de lançar nosso segundo disco e fez a proposta: juntar as duas sessões (uma para uma coletânea da Barulho, outra de um split com o Wacky Kids que acabou nunca saindo) e registrar mais uma com as tais músicas novas. Além de todos esses méritos, o cara teve um ainda maior: conseguiu a muito custo convencer que a capa deveria ser retirada de uma camiseta nossa que homenageava o logotipo dos Ramones. A gente achava que a associação direta com os Grandes Mestres ia parecer muito pretensiosa e tentou propor outras idéias, mas acabamos convencidos. De qualquer jeito, era apenas uma coletânea de gravações, né?

A resposta é não. Não era só mais uma coletânea. O “Back to Basics” acabou sendo o disco nosso que mais vendeu, ajudado pela quantidade gigante de shows que fizemos aquela época, a distribuição da 13 e a popularidade do formato CD. Produzido pelo mesmo Stanley Zvaig que fez o “Go Carbona” e o “Mighty Panorama…”, o Back trouxe algumas músicas que viraram favoritas do nosso público e obrigatórias no nosso set list nos anos seguintes: “Macarroni Girl” (nossa música mais conhecida da fase em inglês), “Lolly Pop, Lemon Drops”, “All My Friends are Falling in Love” e “Alarm Clock”.

#FATOS SOBRE O DISCO#

* O lançamento do disco em São Paulo foi no Hangar, num grande show em conjunto com as maiores bandas da época (Zumbis do Espaço, Blind Pigs e Holly Tree) na primeira vez que o Hangar atingiu sua lotação máxima. MUITO QUENTE!

* As fotos desse show foram parar no encarte do nosso disco seguinte, “Straight out of the Bailey Show”.

* Foi o último disco da gente gravado ainda em ADAT, que era o equipamento mais comum nos estúdios da época. O ADAT era uma fita de supervídeo, um formato mais evoluído de videocassete. Só que resolvemos começar a gravação do disco numa Sexta-Feira à noite, e descobrimos que o estúdio estava sem fitas. Fomos até um posto de gasolina e compramos fitas de videocassete mesmo. A qualidade foi a mesma! O único perigo era demorar demais e a fita perder de qualidade, por isso o disco foi mixado logo depois do término das gravações.

* As fotos do encarte do Back to Basics foram tiradas em um show tributo ao Nirvana no finado Ballroom, palco de algumas apresentações memoráveis nossas aqui no Rio.

* “Metal Princess” foi uma versão de “Little Princess”, da minha outra banda na época, o HillValleys. “Are You Like I Used to Be?” foi um presente do Nervoso, que na época era do Beach Lizards e Acabou La Tequila e hoje está em carreira solo. “Hell of a Trick”, gravada com a participação da Vivi Staple, vocalista das Staples, foi um presente do Henrique para o Staples que acabamos gravando também.

* “All My Friends are Falling in Love” foi escrita pelo Fabio Seidl (Ack) em minha homenagem, e a primeira vez que ele mostrou foi no dia do nosso primeiro show “oficial”, no Empório (Rio). Passei no estúdio para buscar o amplificador, era ensaio do ACK, Fabio parou e mostrou a música. Durante muito tempo encerrou nossos shows.

* “Eve of Destruction” foi gravada ao vivo num ensaio que gerou as faixas extras do “Go Carbona” gringo. É um original country (Barry McGuire) mas a gente conheceu primeiro na versão do Dickies mesmo.

* O mesmo Fabio que escreveu “All My Friends…” é o Seidl de “Seidl Doesn’t Have All Ramones Albuns”. Segundo o Henrique, não valia ter o “All the Stuff” (disco que juntava em um cd o primeiro e o segundo do Ramones e em outra edição o terceiro e quarto). Na versão mais memorável dessa música, durante o lançamento do “Back to Basics” no Ballroom, Henrique cantava a música enquanto Fabio gritava “Oh, yes I Have” no microfone dos backings e ia tirando de uma mochila um a um todos os discos do Ramones.

* O disco faz menção a três lugares do Rio “clássicos” para o Carbona: o Empório (citada em “Rock n’Roll Freakshow”, palco de metade dos nossos shows no início), o Baixo Gávea (B.G. em “Are You Like I Used to Be?”) e a pelada na Lagoa (“All My Friends are Falling in Love”).

* Para uma reprensagem do disco chegamos a fazer uma capa nova, com uma guitarra Mosrite. Essa capa aparece no encarte do “…Bailey Show” mas acabou nunca sendo prensada.

* “Ocidental Accidental” é anterior ao Carbona, da época que o Henrique fez uma banda em Curitiba.

* “Tivoli Park” foi um parque de diversões da nossa infância no Rio (ficava na Lagoa). O nome foi tirado de um parque com o mesmo nome na Dinamarca.

* O livro mencionado na letra de “Are You Like I Used to Be?” é o obrigatório “Mate-me Por Favor”. Leia!!!

* A “Macarroni Girl” existe e é nossa amiga até hoje!

O que eles dizem?

“Comprei o cd “Back to Basics” pelo correio atraves do henrique (vocal). Na época fiquei conhecendo a banda pelos flyers de divulgação que usavamos dentro das cartas (flyers de divulgação = spam de hoje em dia uhauhaa). Tinha ouvido falar que a banda era tipo Ramones, Screeching weasel, peguei o cd e não me arrependi PUTA BANDA!”
(Tyello – Dance Of Days/Total Terror DK)

“O ‘Back To Basics’ foi o primeiro CD do Carbona que eu tive, antes mesmo de comprar o “GO”. Na época, eu tocava no Seven Elevenz e antes mesmo da gente gravar a primeira demo, já tocávamos “Are You Like I Used To Be?” em ensaios, Escuto o CD até hoje e na real, para mim, é o melhor que a banda já lançou. É por causa deste CD que a gente conhece os caras e mantemos contato até hoje, ou seja, o CD é bem especial.”
(Tércio – Shileper High)

“Cara, esse foi o primeiro disco independente nacional que eu chamei de meu. ouvi até quebrar. Literalmente. esse CD é BRILHANTE!”
(Pedro Cupertino – Fotógrafo/Fresno/eterno ZP)

“Em 99 já tinha visto shows do Carbona mas o primeiro cd que comprei deles foi esse, e só com o cd em mãos e o vicio que viria com ele que eu percebi que não era só uma banda de bubblegum, o Carbona se firmou praticamente o dono desse rotulo aqui no Brasil, o cd só classicos como “macarroni girl”, “lollypop lemon drops”, “tivoli park”, “all my friends are falling in love” eram cantadas por todos freneticamente nos shows…o ano de 2000 foi marcado por muitos shows memoraveis pra mim no hangar110 com Carbona, Zumbis, Holly Tree…”
(Shamil – Inkognitta + um monte de projetos)

“Falar o que do CD que tem a bela “Tivoli Park” – a única música que homenageia um dos meus lugares favoritos da minha infância”.
(Daniel Ferro – Emoponto)

“Era 1998 se eu n me engano e o Carbona virou o Ramones Brazuca. “Macarroni Girl”, “Alarm Clock”… ‘Back to Basics” é classico do POP PUNK Br.”
(Matheus Krempel – eterno The Bombers)

“Back to Basics é o disco de amadurecimento da fase “em inglês” do Carbona. A inquietude do “Go, Carbona, Go” continua lá, mas agora mais pensada e trabalhada. É a consolidação de algo que virou uma marca registrada: um toque mais pessoal em todas as letras, com as experiências dos caras, vide “Macarroni Girl”, “Metal Princess” e tópicos tipicamente cariocas como “Tivoli Park”. Tive o prazer de compor uma música para o disco que, sem saber, seguia essa linha: “All My Friends Are Falling in Love”. É sobre todos os caras deixando de ir a tradicional pelada que jogávamos nas noites e madrugadas de terça, por causa das namoradas. E tive a surpresa de ter uma música (mentirosa) batizada com o meu nome: “Seidl Doesn’t Have All Ramones Álbuns” inspirada numa discussão embriagada no Baixo Gávea com o Henrique sobre se ter os All the Stuff and More 1 e 2, os primeiros discos do Ramones a saírem em CD, contariam para uma coleção completa. Para mim, e acho que para o momento do rock independente também, um clássico.”
(Fábio Seidl – eterno ACK)

“Há dez anos atrás não era qualquer banda que gravava um cd, e o mp3 não era essa febre que é hoje, então quando uma banda independente lançava um cd, você parava e escutava com calma, reparando no encarte e decorando as letras. O “Back to Basics” é desta fase, para mim a melhor que já tivemos. Esse cd foi durante muito tempo minha principal trilha sonora dos rolés de skate, e com certeza marcou uma fase incrível da minha vida. O Carbona pra mim é a prova viva de banda que toca por que ama, e qualquer retorno que surgiu foi por puro mérito e qualidade da banda, que outros métodos fiquem omitidos por aqui. Acho que o Brasil tá precisando de um “Back to Basics”, menos tempo no espelho e mais no estúdio. Música sincera, simples e direta.”
(Mateus – Phone Trio)

“Apesar de na epoca o cd ser algo vendavel, o “back to basics” era muito acima da media de outros titulos e eram disputados na 13 records. O disco é muito bom e é um dos meus favoritos do Carbona”
(Fabio Mozine – Mukeka Di Rato/Merda/Os Pedrero)

Enquanto isso, no twitter:

“‘Back to basics’… eu curtia, era legal o sotaque do cara. até hoje eu me pego cantando músicas daquele album as vezes. Principalmente metal princesse e macarroni girl. in love with a groupie também era legal”.
@Folxhm

“capa ramones, músicas que grudam na cabeça. Lembro até hoje do lançamento do CD no Armazém 7, Santos. Marcou uma época boa da cena”
@renatomelo09

“o go carbona go! é melhor, mas não tira o brilho desse disco! coffee with you! lunatic é melhor que lunático! hahaha”
@luizbejota

“Disco bom! clássicos da banda como Lolypop Lemon Drops, macarroni girl e All my friends are falling in love! rock 3 acordes!”
@mairont

“Back to Basics” – Uma aula de como fazer música boa com melodias e letras simples, numa época em que não tinha chororô na cena.”
@romani83

“Bom disco de rock. Carbona em inglês nos primórdios. Embora prefiro outros álbuns, os conheci através de “BACK TO BASICS””
@toticore

“um dos melhores discos do punk rock bubblegum nacional… melodias simples e grudentas”
@betoramone

“porra, back to basics é clááásico. henrique botando pra foder nesse cd, demais. clássico mesmo!”
@viniciusliessi

Para baixar o disco: http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=4869

Bem vindos

novembro 17, 2009 Deixe um comentário

Vamos começar a postagem dos discos.
A intenção é apresentar a vocês os 101 discos essenciais para “entender” a nossa cena independente. Entre aspas, pois 101 discos não são o bastante, claro. E assim como qualquer lista, muitos irão discordar, sentir falta de um ou outro. De qualquer forma, vamos iniciar esse projeto, e caso sinta-se excluido ou injustiçado, do it yourself, faça a SUA lista e publique :).

Alguns discos terão link de download, outros apenas streaming, vamos tentar manter o processo de direitos autorais intacto por aqui.

Este é um projeto do jornalista e escritor Wladimyr Cruz, editor do site http://www.zonapunk.com.br